segunda-feira, 11 de agosto de 2014

'temos maus professores' [quem diria !]... disse o 'cromagmon' da educação liberal...?


no observador...




"São alguns dos piores das gerações do presente que estão nas escolas a preparar as gerações do futuro. O problema não é novo, mas há anos que olhamos para o lado.

Quando se fala de avaliações, há sempre um conjunto de almas que nos vem explicar o quanto elas são inúteis e desnecessárias. Nesses casos, não há nada como esperar pelos resultados para tirar as dúvidas. É que os resultados são como as imagens: valem mais do que mil palavras. O caso da prova dos professores é, quanto a isso, exemplar.

Andou-se meses a discutir a prova – com protestos, dezenas de artigos de jornal, providências cautelares e conferências de imprensas. O que se dizia? Que os professores já tinham curso superior e que por isso não deviam ser avaliados novamente. Que o conteúdo da prova (compreensão de texto, lógica e cálculo) não tinha relação com a actividade do professor. E que a prova, tal como estava desenhada, era tão fácil que, mais do que uma avaliação, constituía um insulto e uma humilhação. Ora, afinal, o que mostram os resultados? Que 14% reprovou. Que 63% cometeu erros ortográficos (15% fez 5 ou mais erros). E que 67% cometeu erros de pontuação. Sim, os resultados impressionam. Mas, infelizmente, não surpreendem.

Portugal tem maus professores. E não é por acaso: é fácil tornar-se professor. Por um lado, veja-se que, enquanto os cursos mais prestigiados mantêm notas de acesso ao ensino superior bastante elevadas, nos cursos de ciências da educação acontece o inverso. Na Universidade de Lisboa, por exemplo, o último aluno a ingressar no curso, em 2013, teve a classificação de 10,9. Ou seja, dito de forma clara: quem hoje vai para professor não são os bons alunos. Por outro lado, quem hoje frequenta os cursos da área da educação são, em média, os que têm níveis socioeconómicos mais baixos e que, por isso, obtêm mais bolsas de acção social. De acordo com os dados para o ano lectivo 2010/2011, 41% dos estudantes desta área de estudos obteve bolsa. Foi a percentagem mais elevada entre todas as áreas de estudos – ou seja, em nenhuma área há uma concentração tão grande de estudantes com baixo nível socioeconómico.

Assim, em termos gerais, quem quer ser professor são os piores alunos, os mais pobres e os menos cultos. Há excepções, e ainda bem. Nos cursos e, sobretudo, nas escolas, onde a regra, felizmente, ainda é a existência de muitos bons e dedicados professores. Mas o perfil médio dos actuais cursos de ensino é este: são alguns dos piores das gerações do presente que estão nas escolas a preparar as gerações do futuro.

Ora, isso é um problema. E não é um problema novo, pois há anos que se faz de conta e se olha para o lado. Também não é por acaso: é sabido que o país vive bloqueado por corporações que lidam mal com o escrutínio e que só aprovam avaliações em que são todos excelentes. Porque, acreditam, uma avaliação que diferencie não é avaliação – é humilhação. Esta prova dos professores demonstrou-o, em três momentos.

Desde o início, com os protestos, num vale tudo para boicotar a realização da prova. Depois, pela reacção imediata dos representantes sindicais perante o elevado número de professores com erros ortográficos e gramaticais, que se apressaram a inventar explicações. Afinal, tudo se teria devido ao novo acordo ortográfico – não eram bem erros ortográficos, eram apenas ortografias diferentes. Só que não foi isso que aconteceu: o IAVE esclareceu que só 10% dos erros se deveram ao acordo ortográfico. Isto é, 90% dos erros são mesmo erros.

Por fim, pela negação dos problemas que surgiu na posição final da Fenprof, que veio explicar que não importam erros, na medida em que não se reconhece autoridade aos correctores para avaliar os professores. Pronto, assunto resolvido: para a Fenprof (e para quem a ouve), dizer que um professor errou é ter má-fé. É estar com os maus. É ser inimigo da escola pública.
Há, pois, perante tudo isto, uma pergunta fundamental que temos de nos colocar: que professores queremos nas nossas escolas? Andamos sempre reactivos, atrás da agenda mediática dos sindicatos e da sua alegada luta pela escola pública. Mas, da perspectiva dos alunos (os principais beneficiários da existência de bons professores ou as principais vítimas dos maus) não há questão mais fundamental do que esta. Está, portanto, na altura de a colocar."




valerá a pena ler alguns dos comentários que lá estão...

entretanto deixo umas linhas onde o paulo guinote replica...



"Daqueles que confundem candidatos desempregados a professores contratados, sem dar aulas, na lista de espera dos centros de emprego com os professores em exercício nas escolas, a tempo inteiro e generalizam a partir daí.

E que fazem essa confusão de forma voluntária.

O Alexandre Homem Cristo, assessor partidário quando não se afirma investigador, é um deles e não tenho problemas em dizer-lho sem rodeios.
Esta crónica é uma lástima."
para ler a respectiva entrada 'temos articulistas muito maus'... aqui.


já agora também podem ler o paulo prudêncio...

"Um certo jornalismo, e uma certa direita - por que não dizê-lo? -, anda por aí a malhar nos candidatos a professores por causa dos resultados da prova de ingresso. É uma continuação da devassa inédita: não há classe profissional com um escrutínio de maldizer semelhante. Devemos distinguir: há uns cataventos à procura de notoriedade e há uma busca de primeira página própria da silly season; ambos são nefastos para a profissionalidade dos professores. E depois há o tal jornalismo e a tal direita. A sociedade portuguesa é um estudo de caso. Tem uns indefectíveis do arco governativo que escrutina mais os professores do que os empreendedores e os políticos dos casos BPN, BPP, BES e por aí fora.

Encontrei um post de 5 de Agosto de 2006. Já tem quase 10 anos, veja-se lá a duração da saga anti-professor.

Diz assim:

Dizer que o sistema escolar em Portugal está de rastos tornou-se moda. Desde dirigentes dos partidos políticos que passam a vida a anunciar reforma sobre reforma até aos colunistas que propalam a falência do dito e passando pelos jornalistas que editam os mais variados e arrasadores editoriais, a ninguém escapa a oportunidade de zurzir nas nossas escolas. 

Esquecem-se que o país tem 30 anos de democracia e que tinha acabado de sair de uma ditadura de 48 anos: sim, 48 anos. Mas como têm de anunciar novidades, nada melhor do que escolher a área mais significativa das areias movediças.

Um dos aspectos que mais me incomoda é o desprestigiar dos nossos jovens. Dizem que eles falham muito, nomeadamente na capacidade de escrever sem erros.

Ora leia a seguinte notícia:
 
“a final do Campeonato Nacional de Língua Portuguesa, organizado pela sic, não teve grandes resultados para quem estava sentado na primeira fila da Aula Magna. Francisco Balsemão, que também era presidente do júri, ouviu o ditado lido por Bárbara Guimarães, apresentadora do concurso, e deu seis erros. A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, tinha sete erros no seu ditado e o reitor da Universidade de Lisboa, Barata Moura, deu cinco erros”.


Ai se fossem três jovens universitários."


aqui.

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