terça-feira, 5 de maio de 2015

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Nicolau Santos
Hoje por Nicolau Santos
Diretor-Adjunto
 
5 de Maio de 2015
 
Todos temos uma pedra no meio do caminho 


«No meio do caminho/ havia uma pedra./ Havia uma pedra/ no meio do caminho». Mutatis mutandis, o poema inesquecível de Carlos Drummond de Andrade foi ontem glosado sob diversas formas em diferentes partes do mundo.

A mais surpreendente vem de uma biografia do primeiro-ministro a ser lançada hoje. Nela, Passos Coelho conta, no capítulo «Somos o que escolhemos ser», que no Verão de 2013 Paulo Portas não lhe atendeu o telefone e se demitiu por sms. Quando finalmente conseguiu falar com o líder do CDS, Passos perguntou-lhe: "O CDS quer sair do Governo? Vamos dar posse e eu não sei se há Governo? O que é que eu digo ao Presidente da República". Paulo Portas respondeu "que a sua decisão era pessoal e que não sabia o que o CDS pretendia fazer". Por seu turno, Maria Luís Albuquerque, que ia substituir Vítor Gaspar também conta a sua versão dos factos: "Eu tomava posse às cinco, o clima era muito tenso. Mas decidi ir para Belém na mesma, uma vez que não tinha informação em contrário. Mas achei que ia ter o mandato mais curto da história", recorda a ministra das Finanças.

Problemas também têm todos os que investiram em papel comercial do BES, considera Nuno Amado. O presidente do BCP, banco que ontem regressou aos lucros depois de quatro anos de prejuízos, sustenta que as regras mudaram depois da resolução do BES para todos os que se relacionavam com a instituição. Amado veio apoiar as teses do Banco de Portugal segundo as quais o Novo Banco não é responsável pelo pagamento desse papel comercial: «Até essa data também não nos passava pela cabeça vir a suportar um concorrente, uma entidade que um dia concorreu connosco». E terminou com uma contundente citação do ex-primeiro-ministro, António Guterres: «Desculpem lá, mas é a vida». Como quem diz: investiram, correu mal, perderam o dinheiro, conformem-se.

Já que estamos a falar de banca e de dinheiro que se escapa por entre os dedos, de Espanha vem a notícia que dos 51.303 milhões que o Estado injetou nos bancos espanhóis desde 2009 ainda só recuperou até agora a módica quantia de 2.666 milhões. Por cá, o Estado português saiu-se bem melhor.

Não havia uma pedra mas um embrulho suspeito junto a um dos pilares da ponte 25 de Abril, o que levou a PSP a cortar o trânsito rodoviário e ferroviário entre as seis da tarde e as nove da noite, provocando monumentais engarrafamentos nas duas margens do Tejo. No final, a possível bomba não passava de um embrulho com roupa que terá caído de um carro. E felizmente para o país, desde 1975 que não rebentam bombas em Portugal.

No norte, o dia de ontem ficou marcado pela chuva e ventos fortes. Ao final do dia, a Proteção Civil contabilizava 578 ocorrências, das quais 404 estavam relacionadas com quedas de árvores, havendo mesmo a registar uma morte de um homem em Braga atingido precisamente pela queda de uma delas.

Quem também tem uma pedra não no caminho mas no sapato é Jean-Marie Le Pen, que acaba de ser expulso do partido que fundou pela própria filha. Furioso, diz-se «traído» e «tratado de forma escandalosa» por Marine Le Pen, a presidente do Front National. E acrescenta mesmo não ter qualquer ligação a quem o trata assim, querendo que Marine deixe de usar o seu apelido.

A Grécia continua igualmente a ser uma pedra no sapato da Europa. E o Eurogrupo é um pedregulho no sapato de Alexis Tsipras, o primeiro-ministro grego, embora seja o FMI a ser considerado o mau da fita. As negociações avançam, mas a passo de caracol, com os gregos a quererem um financiamento intermédio e os ministros das Finanças da zona euro a responderem que só haverá dinheiro depois de uma lista detalhada e completa das reformas com que Atenas se compromete. Entretanto, os cofres helénicos estão cheios quase só de ar. Susana Frexes, correspondente do Expresso em Bruxelas, faz o ponto da situação.

Em Inglaterra, conservadores e trabalhistas disputam taco a taco a vitória e vão apresentando novos trunfos. Agora é Ed Miliband, líder do Labour, que conseguiu convencer o comediante Russel Brand a apoiar os trabalhistas, ele que antes defendia que não se devia votar. Nova polémica estalou entretanto porque Cameron terá admitido que os Tories não vão ter a maioria. «100% mentira», respondeu um porta-voz do partido. Entretanto, Miliband sugere que as promessas eleitorais deveriam ser escritas numa pedra. Olha se a moda pega…

Verdadeiramente, quem já não vê pedras no nosso caminho é o Presidente da República, que se encontra de visita oficial à Noruega. "Depois de três anos particularmente difíceis, Portugal corrigiu os desequilíbrios macroeconómicos, recuperou o acesso pleno aos mercados e a economia iniciou uma trajetória de crescimento e de criação de emprego", disse o Presidente na intervenção que pronunciou no jantar oficial oferecido pela primeira-ministra norueguesa, como relata Luísa Meireles, enviada especial do Expresso.

E o certo é que, a corroborar as palavras do Presidente, finalmente uma agência de notação coloca a classificação da dívida pública portuguesa acima de «lixo». É a ARC, uma agência com origem na portuguesa Companhia Portuguesa de Rating, que se associou a agências da Índia, Malásia, Brasil e África do Sul e é liderada pelo economista português António Poça Esteves.

Cavaco Silva levou na agenda um tema que lhe é particularmente querido: o mar. Mas também a ideia de seduzir o fundo soberano da Noruega, um dos mais poderosos de todo o mundo, a investir em Portugal. Contudo, a primeira-ministra norueguesa deitou pedras de gelo no interesse nacional, afirmando que as decisões do fundo, dotado com 850 mil milhões de euros, são totalmente independentes. Salientou todavia algumas áreas onde os dois países podem cooperar, como a energia (e a tecnologia em águas profundas), bem como a aquacultura.


OUTRAS NOTÍCIAS
A greve na TAP, que hoje entra no quinto dia, continua a ser uma enorme pedra no meio do caminho da companhia, do setor turístico e do Governo. Ontem, Sérgio Monteiro, secretário de Estado dos Transportes, depois de revelar que nos primeiros três dias de greve os prejuízos para a companhia atingiram os 10,2 milhões de euros, apesar de 70% dos voos se terem realizado, lançou mais um lancinante apelo aos pilotos para que terminem a greve e poupem mais 20 milhões de custos para a transportadora: «Mais vale tarde do que nunca». Mas estes fizeram ouvidos moucos e admitem mesmo prolongar a greve por mais dez dias.

Nos Estados Unidos, a polícia acredita que pelo menos um dos dois atiradores abatidos pela polícia quando começaram a disparar contra as pessoas que assistiam à inauguração de uma exposição com retratos e caricaturas de Maomé em Dallas está ligado ao Estado Islâmico.

Mais de 200 resgatadas ao Boko Haram na Nigéria estão grávidas, revela o Público. Ou seja, para muitas das sequestradas, o pesadelo ainda não acabou.

Se quiser, pode hoje ver em Lisboa o novo filme de Manoel Oliveira, que estreou ontem no Porto. Visita ou Memórias e confissões foi filmado em 1982 mas por expressa vontade do realizador só poderia ser visionado após a sua morte.

E leia no Expresso on line a história, escrita por Pedro Santos Guerreiro e Joana Madeira Pereira, do gestor que mais dinheiro ganhou na bolsa portuguesa em 2014. Nunca ouviu falar dele. É brasileiro, trabalhava para a PT SGPS, saiu mas continua a trabalhar, embora a PT SGPS esteja à beira de mudar de nome para PHarol. Ah, chama-se Shakaf Wine.


FRASES
“Those who say we don’t deserve it, in my country we say: “the dogs bark and the caravan goes by”, José Mourinho, treinador do Chelsea, após ter ganho a Liga inglesa, traduzindo à letra «os cães ladram e a caravana passa», expressão que pelos vistos os ingleses não perceberam lá muito bem

“Não vou a São Bento há anos". Manuel Dias Loureiro, em declarações ao Expresso. Mas a algum sítio terá ido para Passos Coelho o elogiar publicamente como "um empresário bem sucedido"

Se comprador do Novo Banco "for chinês, ótimo, desde que pague bem". Nuno Amado, presidente do BCP, mostrando que adotou a grande máxima de Deng Xiao-Ping "não importa se o gato é branco ou preto desde que cace ratos"

"A pretalhada que atravessa o Mediterrâneo devia ser abatida a tiro". Pedro Cosme Vieira, professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Ah, também defende que "se se fizesse o abate sanitário de todos os infetados com sida, a doença desapareceria da face da Terra". E pode? Ser professor universitário, digo eu.


O QUE EU ANDO A LER
A II Guerra Mundial acabou há 70 anos. Não é assim tanto tempo para esquecer o horror. E nunca será demais para tentar perceber como foi possível. «O confidente de Hitler», de Peter Conradi, autor do best-seller «O discurso do Rei», é a fantástica história do homem que foi não só chefe de gabinete de Hitler para lidar com a imprensa estrangeira durante a sua ascensão e os primeiros anos de poder, como também uma espécie de pianista privativo, que tocava para o Fuhrer para o acalmar à noite após dias de grande pressão. Ernst Hanfstaengl, mais conhecido por Putzi, educado em Harvard e, por essa via, amigo do filho de Churchill, Randolfh, tinha regressado à Alemanha quando numa noite de 1922 ouviu Hitler discursar. Ficou tão fascinado que se apresentou a Hitler. A estranha relação entre os dois serviu ao líder nazi para, antes de chegar ao poder, se dar a conhecer às famílias mais ricas e poderosas da Alemanha e ganhar a sua confiança e apoio. Ao mesmo tempo, Putzi matizava as ideias de Hitler junto da imprensa estrangeira, tentando passar a imagem de um estadista que não só estava a recuperar uma Alemanha devastada pela I Guerra Mundial e pelos anos económicos muito difíceis que se lhe seguiram, como o de um combatente contra o comunismo internacional e, por essa razão, um aliado natural do Ocidente. Putzi tentou mesmo um encontro, antes da guerra, entre Hitler e Churchill, numa ocasião que este visitou Berlim, mas o ditador não apareceu. Mas entre os que rodeavam Hitler havia vários que não apreciavam o feitio esfusiante de Putzi, nem as suas críticas aos excessos do nazismo na fase inicial. E assim em 1937 é enviado numa estranha missão a Espanha. O avião, contudo, tem de aterrar ainda em território alemão devido a uma avaria e Putzi percebe que estava em andamento um plano para o liquidar, por forma a parecer um acidente de guerra. Foge, primeiro para a Suíça e depois para Inglaterra, onde no entanto continua sem romper totalmente com o nazismo, antes atribuindo a membros da entourage de Hitler a perseguição aos judeus e as piores malfeitorias do regime. Com o endurecimento da guerra é detido e enviado para um campo de prisioneiros de guerra em Inglaterra. É aí que os serviços secretos americanos o descobrem e, embora com relutância de Churchill, o levam para os Estados Unidos, onde passa a analisar os discursos do Fuhrer e a descrever os seus hábitos, taras e manias, bem como de outros dirigentes nazis. Os relatórios eram entregues diretamente a Franklin Delano Roosevelt, o presidente dos Estados Unidos. Putzi morreu em Munique, a 6 de novembro de 1975. Mas mais que a sua fascinante história, este livro mostra-nos facetas de Hitler que provavelmente desconhecíamos – e que ajudam a explicar a sua ascensão ao poder e como o usou a partir daí.

Convém também lembrar que a Assírio & Alvim acaba de lançar a «Obra Poética» de Sophia de Mello Breyner Andresen. E que o Diário de Notícias faz a pré-publicação de três poemas inéditos dos onze encontrados numa arca de fundo falso de Sophia.

Esta semana e na próxima, como escreveu o Ricardo Costa ontem aqui, o Expresso Diário está em happy hour. É de acesso totalmente aberto a todos os leitores. É só seguir este link

E amanhã cá estará o Martim Guimarães Silva, que gosta de café e é o dono da máquina, a tirar o Expresso Curto. Eu, por mim, desejo-lhe um excelente dia, caro leitor. E não me esqueço do resto do poema de Drummond: «Nunca me esquecerei desse acontecimento/ na vida de minhas retinas tão fatigadas/ Nunca me esquecerei que meio do caminho tinha uma pedra/ Tinha uma pedra no meio do caminho/ No meio do caminho tinha uma pedra».

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